Concorda comigo que a vida é marcada por rituais? Pois então, o Kula é um ritual.
Mas preciso trazer uma compreensão etnográfica para localizar essa prática: um ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica.
O Kula, por sua vez, é uma prática de intercâmbio muito elaborada de objetos preciosos, porém aparentemente inúteis, realizada comunidades localizadas em Papua-Nova Guiné, descrito pelo antropólogo Bronislaw Malinowski no século XX.
Trata-se de um troca cerimonial de braceletes e colares. Os participantes do ritual do Kula viajavam centenas de quilômetros de canoa transportando braceletes e colares. Sim. Sabe para quê? Para trocar para trocar presentes!
Na troca de braceletes por colares (e vice-versa) os participantes do Kula viajavam centenas de quilômetros de canoa transportando esses objetos. Tudo acontecia ao som do sopro de uma concha, que indicava a solenidade da ocasião.
A cerimonia reunia milhares de pessoas de diferentes comunidades e movimentava todo o arquipélogo das ilhas Trobriand, em um sistema inter e intratribal de transações.
Detalhe importante. Os colares de conchas vermelhas (souvala) vinham no sentido horário desse círculo e na direção oposta eram transportados os braceletes de conchas brancas (mwali). Aquele que recebia um colar estava obrigado a corresponder com um bracelete, e vice-versa.
Ok, curioso. Mas qual a relevância?
Pois então, esse trabalho de campo permite compreender que a troca existente no ritual do Kula emprega oportunidade de estabelecer relações sociais, criar vínculos com as comunidades. Não se trata da troca de objetos materiais, e sim sobre vincular-se, estabelecer alianças, relações de correspondência, reciprocidade, hospitalidade, proteção. A troca de presentes, portanto, também é uma troca de sentidos.
*Voltamos para 2022.*Eis que o Kula se torna um podcast. Um espaço para troca significativa de saberes e afetos! 😎